Sobre

Foca Cruz

Luiz Alberto Cruz, Foca, parnanguara, primeira lembrança na vida foi ver Neil Armstrong numa tv preto e branco andando feito um bobo na lua. Nessa época já existiam dinossauros e os carros de corrida na oficina do lado. O primeiro livro lido foi "Viagem à Lua" de Julio Verne. Ganhou do irmão pintor uma "Rotring" 0.3 aos 10 anos, daí em diante fodeu, pois logo ficou claro de fato que desenhar é como tocar violino em público: ou é muito bom ou da ânsia de vômito. 

por Adam West. 


Evocar Moebius, Crumb, Eisner, a turma das revistas Heavy Metal e L’Écho des Savanes, e outras tantas divindades do Olimpo das HQ para falar de Foca Cruz é quase uma obrigação, mas, não é suficiente. Em Foca, as every picture tells a story, há, também, muito de literatura. No seu trabalho vejo Borges (alguma semelhança com o Luiz Alberto Borges da Cruz ou seria mera coincidência?), Wells, Wilde, Asimov, Bradbury, Chesterton, Lovecraft, Allan Moore, e, claro, Tolkien e Lewis. 

Foca é meu amigo de adolescência. Conhecemo-nos em Paranaguá, nos anos 80, época em que a cidade – believe it or not – tinha certa cena cultural liderada por seu irmão, Raul Cruz, artista multitalentoso que só agora começa a ter o merecido reconhecimento. Lemos quase ao mesmo tempo “O Despertar dos Mágicos” e chegamos até mesmo a tocar juntos numa bandinha de rock. Lembro que ele usava um baixo empenado, difícil de afinar, e mesmo assim dava conta do recado. Mas o negócio dele era mesmo desenhar. Andava pra cima e pra baixo com uma prancheta, sempre rabiscando algo que, invariavelmente, daria em algo maior. Eu, fã de rock progressivo naqueles dias, cultuava Roger Dean, que desenhava as capas do Yes (um bom ilustrador, mas nada mais do que isso), que apresentei a ele como se fosse a coisa mais genial do mundo. Foca, do ramo, me retribuiu com Hieronymus Bosch, El Bosco, esse sim um inventor.

Como é normal, com a chegada à vida adulta perdemos o contato. Mas, sempre me diverti ao identificar seu traço em alguma peça publicitária ou cartaz espalhados pela cidade. Graças à Internet, que transformou a “aldeia global” de Macluhan num “quarto e sala”, nos achamos por aí. Observando seus desenhos mais recentes, percebo o quanto um artista de verdade pode evoluir sem perder aquela coisa única, sua marca registrada. No Foca de hoje, vejo tudo o que eu via há décadas e mais Francis Bacon, Miró, Picasso e outros mestres saudavelmente incorporados em algo que não está e nem esteve no gibi. Uma honra ter a capa de meu primeiro livro (único, por enquanto) assinada por ele. Pegou na veia das minhas crônicas com uma fusão entre Kafka e a lua de Meliès. That’s all Foca! 

Helio Freire